quinta-feira, abril 26, 2007

Fragmentos - Cemzão (conto incomeçado)

E vou-me juntando. Até um dia

Do primeiro passo ao derradeiro, Cemzão cagava medo pelas ventas. O povo ria, gritava, bebia cachaça da boa, soltavam fogo pelo nariz, criavam quizumba, espremiam limão nos olhos dos outros e a criançada toda endiabrava.

Cemzão marcava o passo lentamente. Não era pra menos. Tão pesadas as cadenas de couro torrada e chumbo. E ainda os guardas abusaram de suas pernas, que sangravam à porradas bem dadas e experientes.

Tinha circo, barraquinhas, pó de mico, almofadas, deputados, toda a corte malograda do prefeito. Tinha gente pra caralho, tinha boca pra falar, velhas sujas pra xingar, pouco ar, alguns homens destemidos, muitas armas, muitas jovens agitando as muquifas.

Sentia vergonha de seu estado. O maior pica grossa das redondezas. Passou mulher de prefeito, de vereador, de dono da venda, de jornaleiro, de comerciantes vários, virgens, vesgas, lindas, simples, tudo num espaço mínimo de cidade, em ocasiões minimamente seguras e com gente espiando.

Até o ancião, um dos três fundadores do lugar, figura cínica, se aproveitava do passado incerto, das lendas de outrora, pra saborear menininhas ao vento, no conchavo e proteção da história. Mas ninguém vê o que não quer ver.

Veio com os soldados, com pompa e cuspiu no chão.